quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre Rejeição

   “A rejeição, pode ser aceita, o que eu acho difícil de aceitar, é a noção de que errei, e de que eu não posso fazer mais nada a respeito.”  [Nihil]
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  Eu poderia contar dos meus primeiros contatos com o sentimento de rejeição, mas são histórias muito
tristes que ficarão para um outro dia se um dia eu resolver escrever.
  Lembrei agora e vou falar da primeira vez que eu o “superei”. [Quando comecei me interessar mais por garotas tive uma recaída.]

  Eu tinha 11 anos, mas mentia que eram 12, o dono da banca de feira que eu trabalhava não aceitava menores de 12 anos.
  Depois de mais um dia de trabalho eu estava com meu amigo Carlos, que já tinha 16 anos, íamos pegar o ônibus para o Parque Industrial.
  Quando estávamos no ponto de ônibus ele por um momento olhou melhor para eu e percebeu o quanto eu andava “mulambento” tênis rasgado, roupa esfarrapada, ele me pediu para não sentar perto dele, pois no ônibus poderia haver umas gatinhas.
  Eu o tranquilizei, falei que sentaria no banco de trás e assim foi feito.

  Eu sentei lá no fundão e busquei pelo que estava sentindo, naquele momento o único pensamento que veio a minha cabeça foi que se eu estivesse arrumadinho como o Carlos também não iria querer ficar do lado de alguém como eu.
  Nessa época eu lia muito meu amigo Sócrates e sabia o quanto ele andava mulambento por opção, eu deveria ficar ainda mais tranquilo, pois aquela situação me era imposta pela vida.
  Ainda lembro de um sorriso muito gostoso, eu não fiquei ofendido com o Carlos, não senti uma inveja “negativa” dele e nem estava com raiva da situação.
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  Naquele ônibus que ia para o Parque Industrial pela primeira vez percebi que tinha superado satisfatoriamente o sentimento de rejeição, minha vida melhorou bastante internamente.
  Externamente as dificuldades eram impossíveis de serem resolvidas naquele momento, tudo que eu podia fazer era trabalhar e era o que eu estava fazendo.
  Quem sabe um dia eu poderia andar arrumadinho como meu amigo Carlos?
  Lá pelos 16 anos eu tive uma forte recaída. Já contei aqui a história meio tragicômica de como aconteceu minha nova superação, quando fiz de tudo para que uma menina não fosse até minha casa, pois tinha vergonha de onde eu morava e que mesmo assim, depois de muito sacrifício, ela acabou chegando até lá em um péssimo momento.

   Entendi que eu era o que era, me envergonhar diante dos outros era rejeitar a eu mesmo, a pior rejeição é rejeitarmos a nós mesmos.

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  “O que eu acho difícil de aceitar, é a noção de que errei, e de que eu não posso fazer mais nada a respeito.” [Nihil]

  No caso da pobreza, oras, eu não pedi para nascer pobre!!
  Sobre erros que cometi...já foram cometidos, o tempo não para e não volta, se eu errei está errado e pronto, não sou tão idiota a ponto de acreditar que algum dia posso ser perfeito.
  Com o tipo de pensamento que desenvolvo se eu não suportasse muito bem a rejeição seria algo terrível, nem consigo imaginar quão péssimo estaria por dentro.
  Não serei hipócrita, se já tentei publicar livros é lógico que gostaria de algum reconhecimento público então não posso dizer que isto não tem importância, que não ligo o mínimo pra isso.
  Acontece que pensar e escrever é ainda mais importante, algo como um alpinista que gosta de subir a montanha, se ele arranjar algum patrocinador, conseguir algum reconhecimento por seu feito é muito bom, mas ele subirá a montanha mesmo que estas coisas não aconteçam, pois é isto QUE ELE GOSTA DE FAZER.
  Eu escrevo porque gosto, os pensamentos gritam para sair, se 1 ou 2 irão ler, se ninguém vai concordar, se irá provocar rejeição… consigo conviver com isso, ainda não descobri como parar de pensar ou escrever.
  Rejeitar meus pensamentos seria rejeitar a eu mesmo e este é o pior tipo de rejeição que pode acontecer.
  Lembrei agora quando McCoy disse algo mais ou menos assim ao Kirk:

  “No Universo há milhões de galáxias e nestas galáxias trilhões de seres, mas apenas um James T. Kirk”.

  Depois de uma dura batalha contra um grande capitão romulano, Kirk estava em questionamentos infindáveis sobre o que deveria ter sido feito, estava rejeitando seu próprio comando, estava perto do fim.
  McCoy disse que a vida de Kirk realmente não significava nada diante da imensidão do Universo, mas deveria ainda significar muito para ele e se alguém teria que ser destruído que fosse o capitão romulano.
  Kirk se recompôs, parou de pensar no que deveria ter feito e pensou no que ainda poderia fazer, venceu mais uma batalha.


  Há bilhões de habitantes neste planeta, mas apenas um William Robson, ainda não rejeitei o comando de minha mente, sei que inevitavelmente serei devorado, por mais que lute serei destruído, mas não aqui, não agora, amanhã talvez…


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