sábado, 7 de junho de 2014

Auto Rejeição

  “Posso comemorar já estar conseguindo fazer uma lista de supermercado na cabeça, sem precisar escrever nada, e horas depois, ainda estar com essa lista na cabeça.” [Nihil]
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  No trabalho “as vezes” um colega fala de alguma coisa boa que fiz e vou logo dizendo: “Eu sou assim, perfeito, maravilhoso e humilde”.


  Meu primeiro ano de escola começou no Bairro Boa Vista.   
  Não moramos ali por muito tempo, eram casas da Cohab a preços populares, mas meu pai não conseguiu pagar e fomos despejados voltando a morar no fundo da casa de minha vó Timira no bairro São Bernardo.
  Fui transferido de escola e a que funcionava no São Bernardo [Geny Rodrigues] estava com a matéria bem mais adiantada que a que eu comecei o ano letivo, mas apenas isso não era capaz de justificar minha dificuldade em entender o que a professora falava, meditei bastante e descobri que possivelmente eu era muito burro, abaixo do nível das outras crianças.
  Como eu detestava ser burro!
  Meus coleguinhas resolvendo calmamente os problemas com suas letras bonitas e eu com aquele garrancho e não entendendo absolutamente nada.
  Ler eu era bom, era só nisso também.
  Para ver se minha burrice diminuía minha mãe com muito sacrifício começou a comprar “Biotônico Fontoura”.

  “O Biotônico Fontoura é um medicamento fortificante e antianêmico criado em 1910 pelo farmacêutico brasileiro Cândido Fontoura.
  Desde meados dos anos 90, o Biotônico Fontoura havia se tornado marca do portifólio da DM Farmacêutica, que posteriormente foi vendida ao Hypermarcas que ainda produz e comercializa o produto no Brasil.
  No ano de 2010 o Biotônico Fontoura completou 100 anos e entrou para a lista de medicamentos mais antigos ainda em circulação no Brasil.”  [Wikipédia]

  No entanto a melhor resposta para minhas dificuldades foi eu fazer mais lição de casa e praticar a exaustão as tabuadas.
  Ler e reler os problemas até entender exatamente que caminhos eu deveria seguir, quais deveriam ser as linhas de raciocínio.

 Claro que eu gostaria de ter nascido inteligente, mas foi legal me descobrir burro e com pouca memória desde cedo, consegui conviver melhor com essas minhas deficiências.
 Não acredito que o Biotônico tenha feito alguma diferença porque era difícil sobrar dinheiro para comprar e só bebíamos a dose indicada quando pegávamos escondidos, minha mãe dava bem pouquinho para economizar.
 Eu e meus irmãos gostávamos do sabor, secávamos rapidamente a garrafa…HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!
  Mas para o texto não ficar muito longo vamos ao que quero dizer.
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  Existe essa auto rejeição em muitas pessoas e eu entendo perfeitamente, mas não sei até que ponto ficar se entupindo de remédios é mais eficiente que conviver pacificamente com nossas deficiências. [Claro que depende da deficiência e de quanto ela nos afeta]
  Aqui no móvel do computador tem um bloquinho onde vou marcando coisas que preciso comprar para eu ou para casa, tem também um calendário de papel onde marco folgas e compromissos no mês.
  Fora isso meu e-mail disponibiliza agenda e também uso essa ferramenta. É muito prático, eu recebo uma mensagem ne avisando o que devo fazer...vivemos uma época maravilhosa.

  Não vou ao mercado sem minhas anotações, não seria capaz de lembrar as coisas que faltam.
  Com a lista economizo tempo e dinheiro.
  Exemplo: Comemos pouca mussarela e levar uma segunda peça vai custar dinheiro e acabar sendo jogada fora.
  Cebola velha deixa um cheiro ruim na cozinha se eu comprar muita cebola acabará fatalmente sendo um incomodo.
  O bloquinho do lado do computador é tão eficiente que não sinto necessidade de turbinar minha memória com alguma droga, além do mais não sei para que vou querer ficar lembrando da lista de supermercado daqui dois ou três dias!

  No trabalho anoto os procedimentos e no começo sempre que estou em dúvida vou lendo, depois de algum tempo os procedimentos mais utilizados vão fixando em minha memória.

   Eu poderia ficar aqui horas escrevendo sobre minhas falhas de memória, de tanto fazer o mesmo caminho para o trabalho já aconteceu de eu ir ao Centro da Cidade por um caminho mais longo porque na minha cabeça eu estava indo para o trabalho.

  As pessoas ficam com auto rejeição por não serem “maravilhosas”.

  Eu não sou maravilhoso, não sou bom em quase nada, sou bem medíocre de trabalhos manuais até aqueles que exigem uma excelente concentração, mas vou vivendo.
  Tem até um lado bom, vejo pessoas que talvez por terem melhor memória ficam anos revivendo uma ofensa, uma magoa, um amor perdido, uma gafe…

  Eu lembro de como foi desagradável ser despejado lá da Boa Vista, mas não tenho em minha memória a exata dimensão daquele sentimento de humilhação de ter que voltar a morar no fundo da casa de minha vó, foi um sentimento muito ruim que não consigo ficar revivendo, guardei apenas o fato, um fragmento do que senti.
  Tanto que consigo escrever sobre isso tranquilamente, sem ressentimentos…por vezes não ter excelente memória é uma benção.
  Como dizia Clarice:
  “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”  Clique Aqui




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