sábado, 22 de outubro de 2016

Ética dos Outros

  Você acreditar que o mundo tem que girar em torno de você porque está doente é a emoção dando a última palavra.
  A sabedoria está há milhas, e milhas, e milhas da sua mente ... isso geralmente se traduz na intensificação da dor e do sofrimento, decepção e depressão. 

  A grande maioria dos trabalhadores nunca esteve em um cargo de chefia, nem foi dono de alguma empresa.
  Como eu passei por essas situações gosto de passar para as pessoas como é estar “do outro lado”, “não ser do povo”. 😱!

  “Transformaram o conceito de ‘povo’ em algo tão subjetivo quanto fizeram com o conceito ‘Sistema’.
  Lendo os comentários na Internet fico sem saber o que é povo.
  Militar não é povo.
  Empresário e filho de empresário não é povo.
  Líderes religiosos não são povo.
  Políticos não são povo.
  Classe média não é povo...para o Governo do PT qualquer família que tem renda per capita acima de 300 reais é classe média.
  Minha família tem 4 membros, eu, minha esposa e nossas duas filhas, quer dizer que se eu e minha esposa juntos ganharmos 1200 reais...somos da classe média!!
  Notem que pelo que lemos na Internet e em outras mídias, para ser “povo” você tem que ser muito pobre ou viver na miséria.”
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  O que você acha de uma pessoa que cobra um procedimento ético que ela mesma não pratica?

  Nos casos de doença e morte os funcionários (sem generalizações) querem uma consideração que eles mesmo não tem.
  Para entender esse texto a primeira coisa é você parar de ver empresas como alguma entidade pessoal.
  A empresa que eu fui encarregado chamava Seline, não existe e nem existiu nenhuma entidade pessoal chamada Seline andando por aí.
  Empresas são pessoas jurídicas.
  O que quer dizer isso?
  A grosso modo é uma entidade que só existe no papel, isso facilita a cobrança de impostos por parte da Receita e as regulamentações por parte do poder público.
 Pessoas físicas respondem por essa empresa, no caso meu patrão e seu sócio.
 Abaixo dos sócios proprietários somos todos funcionários.
 As decisões do dia a dia são tomadas pela chefia/gerência/diretoria enfim, SÃO PESSOAS LIDANDO COM PESSOAS.

 Tudo isso é muito óbvio.
 Não entendo como algo tão trivial sofre uma inacreditável mutação na mente das pessoas.
 Vou dar exemplos que de certo quem trabalha vai reconhecer.

  O cidadão traz um atestado médico de 7 dias e nem está tão doente.
  Ele quase comemora como se fosse uma vitória contra a empresa opressora.

  Voltando um pouco no tempo...
  Eu na posição de encarregado solicitei um empregado para determinado setor, meu patrão me atendeu.
  Alguém precisando de emprego quase me implorou para contrata-lo, falando de todas as suas qualidades possíveis e imagináveis e me dizendo o quanto seria útil para empresa.
  Eu o escolhi e dispensei outros candidatos à vaga.
  Agora o cara me traz um atestado de 7 dias.
  Se realmente está doente a ponto de não poder trabalhar por 1 semana é lamentável, mas fazer o que, ninguém escolhe ficar doente.
  A ausência desse funcionário vai prejudicar seus companheiros de setor, vai sobrecarrega-los com mais serviço.
  Esse cidadão está comemorando o quê?
  A doença ou o transtorno provocado aos demais funcionários!

  Na mente dele tem um pensamento infantil.
  Vai ganhar sem trabalhar.
  Ficará em casa e a dona Seline vai ter que pagar.
  É o “direito” dele.

  Vamos para o “outro lado”.
  A não ser em caso de fraude/crime nenhum empresário quer ir a falência (que a empresa fique doente).
  Mas falências acontecem e trabalhadores acabam ficando sem direitos e salários.
  Por isso em caso de falência os trabalhadores tem a prioridade na distribuição de recursos.
  Isso está previsto em lei e acredito que todos consideramos ÉTICO.
  Se o empresário tentou de todas as formas, mas a empresa está indo a bancarrota, antes que a desgraça total ocorra é de boa índole separar os recursos que garantirão o pagamento de todos os direitos trabalhistas.
  Já pensou se o empresário agir como o funcionário que consegue trabalhar, mas mete um atestado?
  O empresário pode pagar os direitos trabalhistas entretanto prefere cuidar apenas dos seus próprios interesses.
  Separa o que consegue guardar para si e se os funcionários quiserem alguma coisa que acionem a justiça.

  Fica claro que podemos ser éticos ou antiéticos em qualquer posição social.

  Eu sei que ética, moral, bons costumes são terrenos pantanosos, mas também sei que certas situações não dão muita margem a dúvidas.
  Roubar, mentir, assassinar, corrupção, se permitir uma vantagem indevida ... não são éticos.

  Vamos para um terreno mais escorregadio

 😡 “Meu pai faleceu no dia 13-01-12, não trabalhei dias 13, 14 e 15.
   Voltei a trabalhar dia 16-02 e a empresa quer me descontar a quarta-feira mais o descanso remunerado está correto isso?

👩 Artigo 473, inciso I, da CLT:
 "até 2 (dois) dias consecutivos, em caso de falecimento do cônjuge, ascendente, descendente, irmão ou pessoa que, declarada em sua Carteira de Trabalho e Previdência Social, viva sob sua dependência econômica;"
  Mas, a maioria das Convenções Coletivas amplia esses dias para 3, ou até mais, por isso é preciso que cada trabalhador tenha uma cópia da Convenção Coletiva em que se enquadra, que pode ser obtida junto ao Sindicato correspondente.
 
  É comum o funcionário considerar sacanagem, falta de consideração da empresa o desconto de dias por motivo do falecimento de algum parente querido.
  Na mente do cidadão vem aqueles chavões.

😭 “Só pensam em dinheiro, não tem a mínima consideração.”

😭 “Eu trabalho aqui há tantos anos e é isso que eu recebo.”

  Vamos ficar apenas nessas duas frases.
  Na posição de encarregado, diante dessas reclamações do funcionário eu ficava em silêncio, em respeito à sua dor.
  Fazia aquela cara de chateado e ouvia o desabafo do cidadão.

  O que passava em minha mente?

  Caraca mano!
  Sua mãe morreu (amigo ou parente querido) você sabia que eram 2 dias de licença é isso que te garante a CLT.
  Se você ficou mais dias em casa, em nome do que a empresa tinha que te pagar!?
  Você só pensa em dinheiro em um momento de dor desse?
  A MÃE É SUA, não é minha ou do meu patrão.
  Se para você sua mãe não vale a perda de alguns reais porque para eu deveria valer!?

  Você está aqui a tantos anos, sabe de quanto precisamos do seu trabalho, e se ausenta mais do que a lei te permite!
  Que falta de consideração!

  Percebem?
  A pessoa cobra uma “ética”, uma “consideração”, um “desapego ao dinheiro” que ela mesma não demonstra.

  Foi nesse tipo de situação que me veio um pensamento:

  “Acho surreal o indivíduo esperar que outro humano seja muito melhor do que o próprio individuo é.”
  [William Robson]

  Tem coisas que só dá para esperar de Deus...


Nenhuma “entidade pessoal” vai segurar esse B.O.  


  Preciso encerrar esse texto com outra obviedade, nem acredito que seja preciso deixar registrado.
  Você pode ser simpatizante do anarquismo, capitalismo, socialismo, comunismo, cristianismo, liberalismo, budismo, islamismo, ateísmo, agnosticismo ... não importa o ismo.

  É sempre PESSOAS LIDANDO COM PESSOAS.

  As decisões, atitudes, programação das maquinas ... pessoas, pessoas, pessoas.

  Bondade, maldade, honestidade, desonestidade, burrice, inteligência ... não vem de partidos, empresas, instituições, vem de PESSOAS.

  A prioridade é sempre punir ou elogiar INDIVÍDUOS.
  Um policial não pode representar toda a polícia (para o bem ou para o mal).
  Um pastor ou padre não pode representar todos os religiosos.
  Um político não pode representar todo um partido.

  A sociedade é constituída de indivíduos.
  Quanto mais elevada a qualidade moral de cada um, mais elevada é a qualidade moral do todo.
  Minha pergunta é óbvia:

  Você está fazendo a parte que lhe cabe tentando ser melhor ou apenas fica cobrando que o outro seja melhor?