sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Calcanhar de Aquiles


Comentarista: Por que pessoas trans existem e como lidar com o luto pelo o que não foi?

  Sou uma mulher trans de 25 anos.
  Eu me recuso a aceitar o positivismo e orgulho falsos que a comunidade trans, principalmente mulheres trans, tentam passar, elas não falam sobre o sofrimento que é ser trans.
  Pra mim ser mulher trans é olhar pra uma mulher cis e pensar: "era pra ser eu ali", é sentir luto por não poder passar pelas coisas comuns que as mulheres cis passam, como menstruar, sentir cólica e engravidar.
  É viver em constante comparação, eu sinto inveja e tristeza por não ter nascido mulher cis.
  Eu já me comparei com as minhas primas e pra mim elas têm tudo, nasceram mulheres, têm filhas, elas têm pai, são casadas, enquanto eu não tive nada disso, nasci no corpo errado, cresci sem pai (ele se foi quando eu era criança), talvez nunca tenha filhas e nem serei amada.
  Além disso, ainda tem o preconceito, a marginalização, ser tratada como inferior, correr risco de ser morta só por ser eu mesma, perder oportunidades, etc.
  Eu não escolhi nada disso e por isso muitas vezes já pensei: "por que nasci maldita?" ou "por que tive que nascer assim?".
  Escrevo dessa forma pras pessoas cis entenderem que não é uma questão estética, mas sim, uma questão existencial.
  A minha filosofia é muito baseada nos artistas que fazem sentido pra mim. gosto dos filmes do tarkovsky, livros e poemas de bukowski e músicas do autechre.
  O que os três tem em comum, mesmo que em mídias diferentes, é que eles lidam com o que não tem conserto, com o que foge da lógica e não prometem reparação, por isso, são artistas que gosto muito e que me fazem encarar de frente essas perdas, sem aceitar respostas fáceis e de forma realista, mesmo que seja doloroso.

William: Muitas pessoas, talvez a maioria, tem esse "coitadismo".
  "Olha como eu sofro!".


   Tenho um colega de Internet cuja filha nasceu com grave problema na pele, prefiro não entrar em detalhes, mas é aquele tipo de paciente que só de olhar fica explicito todas a limitações que tem, o sofrimento com a dependência  de terceiros (mesmo que seja pai e mãe) e o desconforto constante com os tratamentos.
  Esse é o tipo de pessoa que "pra mim" tem tipo ... direito  ao coitadismo.
  Nesse mundo a pior coisa "pra mim" é ter alguma grave deficiência física ou perder a saúde.

  Outros problemas, quando levam para o campo do coitadismo eu considero mais  "frescura".
  Por favor, claro que cada caso é um caso.
  Entendo seu problema e de jeito nenhum sou insensível.

  Meu ponto é que humanos que nascem em situação muito satisfatória são poucos.

   Sempre tem pelo menos um "Calcanhar de Aquiles".

 

  "Calcanhar de Aquiles" é uma expressão que significa ponto fraco ou vulnerabilidade de alguém ou algo, apesar de força geral.

  Na mitologia grega, a ninfa Tétis mergulhou o filho Aquiles no rio Estige para torná-lo invulnerável, mas segurou-o pelo calcanhar, deixando essa parte desprotegida.

  Durante a Guerra de Tróia, Páris acertou uma flecha nesse ponto, matando-o.

  Hoje, usa-se para indicar fraquezas fatais.

 



  Exemplo, a pessoa que nasce e cresce "feia" para nossos padrões de "simetria".
  Claro que ela carrega essa dor de ter nascida sem a qualidade da beleza.
  De certo imagina como seria ter nascido bonita (o) ser cobiçada como alguma colega.
  O mesmo serve para o pobre que "inveja" o rico.
  O "pouco inteligente" que inveja o muito inteligente.

  Sou negro, quando criança (ali pelos 4 anos)  não entendia porque meu cabelo era "pixaim".
  O da minha irmã não era.
  (Era crespo, mas não ao nível do meu.)
  Uma tia, na melhor das intenções, disse que se eu dormisse com touca de meia calça meu cabelo ficaria liso.
   Perguntei se igual o do Sérgio (um vizinho "branco"), ela disse que sim.
   Consegui uma meia calça usada, minha mãe fez uma touca, eu dormi muito tempo usando, mas meu cabelo continuou pixaim...
   É, com o tempo entendi que era uma característica física e não tinha como mudar.
   De qualquer forma, quando consegui alguma renda mais consistente, comecei usar creme alisante e nunca mais parei.

  Enfim, temos que nos adaptar ao que somos.
  Tentar as mudanças possíveis e pesar o "custo beneficio"
  Se ser "mulher trans" tem toda essa dificuldade.
  Porque você não pode viver como um "homossexual comum"?
  Meu vizinho vive com um companheiro há anos.
  A vida deles me parece bem tranquila, normal.
  Eu e minha esposa temos filhas, eles não ... uma situação com limitações, mas longe do "olha como eu sofro".
  São bons vizinhos.

  Como lidar com o luto de não ter o que invejamos?
  Humm ... você imaginou como seria ganhar sozinho na megasena da virada de ano, jogou e não ganhou.
  Não escolhemos o que sentir, a frustração acontece.
  Decidimos como agir, a maioria vai retomar sua rotina de pobre.
   Parar de trabalhar e ficar deprimido em casa ... é uma opção; se não tiver quem te banque vai piorar muito sua situação.
  O ano que vem possivelmente vai ficar com inveja de quem tem o que você tinha ... não estou falando só de dinheiro.



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Comentarista: Eu sinto inveja e tristeza por não ter nascido mulher cis.
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https://filosofiamatematicablogger.blogspot.com/2026/01/calcanhar-de-aquiles.html

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  Resumo

 

1. O "coitadismo" é comum, mas justificado apenas em sofrimentos extremos:  Você diferencia casos graves (como deficiências físicas severas que causam dependência e desconforto constante) de outros problemas, que muitas vezes considera "frescura", embora reconheça que cada caso é único e não seja insensível.

 

2. Todo ser humano tem um "calcanhar de Aquiles":    Todo mundo nasce com alguma vulnerabilidade ou ponto fraco (como feiura, pobreza, baixa inteligência ou características raciais), gerando inveja e dor pela comparação com quem "tem tudo"; poucos nascem em situação plenamente satisfatória.

 

3. Exemplo pessoal de adaptação a uma característica inata: Você relata a experiência de infância com o cabelo "pixaim" (diferente do da irmã e de vizinhos brancos), a tentativa frustrada de alisá-lo com toca e, posteriormente, o uso de creme alisante ao ter condições financeiras, ilustrando a necessidade de aceitar e adaptar-se ao que não pode ser mudado radicalmente.

 

4. É essencial adaptar-se ao que somos, tentando mudanças viáveis: Enfatiza-se pesar o "custo-benefício" das alterações possíveis, em vez de ficar preso ao luto ou à comparação constante.

 

5. Sugestão de alternativa para reduzir o sofrimento:  Questiona-se por que não viver como um "homossexual comum" (exemplo de vizinhos gays com vida tranquila e normal), que evitaria muitas dificuldades específicas de ser trans, mesmo com limitações como não ter filhos.

 

6. Lidar com o luto e a inveja requer ação prática, não paralisia: Compara-se o luto por não ter o desejado à frustração de não ganhar na loteria: não escolhemos os sentimentos, mas decidimos como agir; parar a rotina e ficar deprimido só piora a situação, sendo melhor retomar a vida e adaptar-se.

 

7. Crítica implícita ao positivismo forçado:      

   Indiretamente, ao contrastar com o relato da comentarista (que rejeita orgulho falso e destaca o sofrimento real), você defende uma visão realista: aceitar perdas irreparáveis sem respostas fáceis, focando na adaptação em vez de vitimização excessiva.

 

  Esses pontos capturam o núcleo dos seus argumentos, que giram em torno de realismo, adaptação e relativização universal do sofrimento humano.


  



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