Sheila: Quando o transporte público não é libertador o sonho do oprimido é ter um carro.
William: 😂 Engraçado, mas ter carro é muito bom.
Nem imagino quanto bom o transporte público deveria ser para eu desistir de ter carro.
É muito “libertador”.
Maria: Não tenho mais carro há 15 anos e nem considero comprar um, dá mais trabalho e gasto que liberdade na minha realidade.
William: Quando trabalhava longe (13 Km) usava moto, diminuía o custo.
Agora que consigo fazer tudo num raio de 5 Km me desfiz da moto.
Mas é bem isso, cada um tem sua própria realidade e pode tentar muda-la na medida do possivel ... se quiser muda-la óbvio.
Uma coisa que noto muito sobre transporte publico (e tantas outras coisas) é justamente a distorção da realidade.
Parece que o Brasil inteiro é uma grande São Paulo ou Rio de Janeiro.
Nasci e cresci em Campina SP, uma cidade com cerca de 1 milhão de habitantes.
Temos "favelas", mas bem menos que as capitais mais povoadas.
Sim, temos ônibus lotados em horário de pico e o trânsito fica congestionado em algumas avenidas principais.
A realidade de quem mora em Campinas não é tão intensa como na Capital São Paulo, mas temos uma boa noção, sentimos na pele o que é dito nos diversos debates.
Acontece que ...
Trabalhei na cidade vizinha de Indaiatuba, cidade com cerca de 260 mil habitantes.
Não sei hoje, faz anos que não vou lá, mas não tinha favelas.
O trânsito flui bem.
A empresa ficou lá por 10 anos, não lembro dos funcionários terem problemas com transporte lotado.
Devido as distâncias serem menores, usavam bicicleta, moto ou a pé mesmo.
Vejam bem, um município com mais de 200 mil pessoas e a realidade já muda consideravelmente.
O Brasil possui 5.570 municípios, apenas 319 deles têm mais de 100 mil habitantes.
A dedução é óbvia, muito da discussão sobre favelas e transporte público cabe em uma realidade bem especifica dos grandes centros, não é a realidade de 213 milhões de brasileiros.
Atualmente, cerca de 49,3 milhões de pessoas moram nas 27 capitais do Brasil.
Somando algumas outras cidade bem povoadas, vamos dizer que seja 25% da população.
Ou seja, para 75% da população o debate sobre favelas e ônibus lotados são coisas que elas ouvem e assistem, mas não vivem de fato.
Se levarmos em consideração que nem todo mundo que mora em grande cidade vive a realidade excruciante de ônibus lotado e favela ... estamos focando nossos debates em nichos bem pequenos que não representam a nação como um todo.
Boa parte da população tem carro, moto, ônibus fretado, por isso os congestionamentos.
No Brasil todo menos de 10% da população vive em favelas e elas se concentram nas grandes cidades.
Por favor, não estou querendo jogar o problema para baixo do tapete.
Pelo contrario, estou expondo que muitos eleitores votam de olho em uma realidade especifica como se fosse generalizada em todo país.
Se você trata um apendicite como câncer de intestino ... quais as chances do resultado ser satisfatório?
(A pergunta é retórica.)
✧✧✧
Resumo:
1. A realidade é individual, não universal: Cada pessoa tem sua própria realidade e pode tentar mudá-la na medida do possível , se quiser mudá-la. O ponto de partida do texto é justamente esse: não há uma experiência única de transporte ou moradia no Brasil.
2. O debate distorce a realidade ao tratar o Brasil como se fosse São Paulo ou Rio: O principal argumento seu é que há uma distorção generalizada: parece que o Brasil inteiro é uma grande São Paulo ou Rio de Janeiro, quando na prática as realidades são radicalmente distintas por tamanho de município.
3. Experiência vivida como evidência , Campinas e Indaiatuba: Você ancora o argumento em vivência própria: trabalhei na cidade vizinha de Indaiatuba, cidade com cerca de 260 mil habitantes , não tinha favelas, o trânsito flui bem, e devido às distâncias serem menores, usavam bicicleta, moto ou a pé mesmo. Um município de 200 mil já apresenta realidade consideravelmente diferente.
4. Os dados: apenas 319 dos 5.570 municípios têm mais de 100 mil habitantes: O Brasil possui 5.570 municípios, apenas 319 deles têm mais de 100 mil habitantes. A dedução é óbvia: muito da discussão sobre favelas e transporte público cabe em uma realidade bem específica dos grandes centros, não é a realidade de 213 milhões de brasileiros.
5. 75% da população não vive essa realidade de fato: Cerca de 49,3 milhões de pessoas moram nas 27 capitais do Brasil. Somando algumas outras cidades bem povoadas, vamos dizer que seja 25% da população. Ou seja, para 75% da população o debate sobre favelas e ônibus lotados são coisas que elas ouvem e assistem, mas não vivem de fato.
6. Menos de 10% da população brasileira vive em favelas: No Brasil todo menos de 10% da população vive em favelas e elas se concentram nas grandes cidades. Isso reforça que o problema, embora real e sério, é geograficamente concentrado , não generalizado.
7. O risco político de votar com base em uma realidade específica como se fosse nacional: O argumento mais contundente e seu fecho: muitos eleitores votam de olho em uma realidade específica como se fosse generalizada em todo o país. Se você trata uma apendicite como câncer de intestino... quais as chances do resultado ser satisfatório? O diagnóstico errado leva a soluções erradas.
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